Primeiro, eu era apenas uma menina.
Depois me convenceram que eu tinha que crescer e endurecer. Obedeci.
Daí então, eu fiquei forte. Porque tive que aprender a ser forte.
Fui até o fim e abracei o mundo, mesmo não tendo braços longos o suficiente para segurá-lo comigo por muito tempo. Compreendi e o libertei. Me libertei.
Depois, pediram para que eu ficasse fraca porque lguma delicadeza me faria mais forte do que a minha própria força. Novamente, obedeci.
E então, eles me esmagaram. Pisaram nas minhas flores, destruíram meu jardim e jogaram veneno nas minhas terras na tentativa de fazer com que nada mais brotasse ali.
Por um tempo fui galho seco, raiz morta, terra infértil. A fonte que tinha lá secou quando perdeu seu leito, soterrado com as pedras que me jogaram.
E então, um dia, alguém me alertou. “Não obedeça ordens. Pessoas que conduzem a obediência, o fazem porque não conseguem te convencer, por isso, mandam.”
Eu senti medo. Porque foi medo que me ensinaram a sentir. Ensinaram a respeitar o medo. Mais do que a coragem. E eu, com medo, obedeci.
Um dia, alguém me estendeu a mão. Uma mão diferente das outras, uma mão que não se repete, que só existe um par, uma mão que só o amor pode segurar. E eu segurei, porque o amor matou o medo.
Então mudei para outras terras, onde não tinha veneno; tinha um horta, então havia vida. Quando cheguei lá, apenas olhava a pequena horta da janela, mas ainda não podia cultivá-la; antes tive que voltar a ser forte, mas dessa vez não recebi nenhuma ordem e não precisei escolher entre ser forte ou ser delicada. Eu podia escolher ser duas, eu podia escolher ser qualquer coisa, podia ser o que eu quisesse- porque o amor que me acolheu é o que permite, não aprisiona, não exige, não condiciona. Apenas é. E sempre está lá.
Uma dia acordei e resolvi ir até a horta. As ervas frescas tinham aromas, beleza, sabor. Resolvi plantar uma flor para ver se vingaria. Vingou. Depois plantei outra. E mais outra. Um dia, depois de muitas visitas a pequena horta, olhei novamente da janela e não havia mais uma pequena horta. Havia um jardim frondoso em minhas novas terras. Vida que saiu das minhas mãos, que ainda duvidavam.
Ao chegar ao meu novo jardim, quis colher uma flor para dar àquelas mãos que se estenderam tõa graciosamente para me reconstruir. Queria mostrar que o amor delas me salvou e me devolveu a vida que tinha perdido. Quando fui cortar a haste, senti medo novamente. Senti um cheiro de morte que me moveu para longe da flor. Ela estava lá, na sua parte de terra, enraizando sua vida, criando beleza, corpo, forma. Virando delicadeza e sendo forte nos dias de chuva e de sol. Se eu a arrancasse, estaria obrigando-a a seguir minha ordem de transportar meu agradecimento que certamente levaria beleza às mãos que me acolheram; porém depois disso, eu a estaria condenando a agonizar dia a dia em um copo com água que não a salvaria da certa, completa e total destruição.
Desisti. Eu não seria sua algoz. Não se pode fazer uma vítima, alguém que já foi vítima.
Então chamei as mãos de amor que me resgataram e a levei até minha janela. Dei a elas o meu jardim inteiro, porque tinha certeza de que aquelas mãos... aquelas mãos também não impediriam que meu jardim continuasse vivo, livre e lindo.
Ele continua lá, onde o plantei e aqui, dentro de mim. Mas é nas mãos que me ensinaram novamente a viver, a ser forte e a ter delicadeza, que ele continua florido.
Ele continua. E sempre passeio por ele...